Gotas ao Dia leva ao branco psiquiátrico
Sérgio Salvia Coelho, diretor e ex-crítico
teatral, falou com exclusividade à Paradoxo
por Neomisia Silvestre
A sala é de tom experimental. Os 13 degraus da
escada caracol encaminham pés ao encontro do palco. Internos, lá estão os três
atores no silêncio branco da loucura. Acentos tomados, o público é servido de
Gotas ao Dia, espetáculo do coletivo Teatro de Risco, dirigido por Sérgio
Salvia Coelho, em São Paulo.
Um colchão infantil acolhe o sono tranquilo da
jovem Lyssa [Tatiana Passarelli]. Sob vigília, ela desperta em meio a
questionamentos do que faz ali, de dias e horas do hoje e do por que acordar
numa clínica psiquiátrica, que são respondidos pela outra interna, a “colega
social”, como define a atriz Juliana Ostini.
O cenário composto por projeções audiovisuais
botam face a face uma Lyssa do passado e presente, de atos cometidos e não
ditos, que ajudam a construir uma história de amor dentro do labirinto da
memória. A gravidez não revelada causa o ruído na relação entre ela e o
namorado, vivido por Laerte Késsimos, que interpreta também o enfermeiro.
Adaptado em três semanas de
ensaio no local, o
espaço intimista pouco separa público de palco, que substitui o habitual preto
linóleo – utilizado na forração de teatros e salas de dança – por um branco
EVA, aquela borrachinha colorida comum em trabalhos escolares e
artesanais.
Apoiado em pesquisa de casos reais, a história
desemboca em uma loucura cotidiana de quem, no fim das contas - ou gotas -,
quer apenas alimentar o cachorro, as compras de supermercado, o banho de mar, o
passeio no parque e o beijar do namorado, vontades expostas e impossibilitadas
pela paciente.
Em entrevista exclusiva, Sérgio
Salvia Coelho
fala sobre o processo de montagem, que passa por referências teatrais e
contemporâneas, como a internet.
Revista Paradoxo - Gotas ao dia é uma história
de amor[es]?
Sérgio
Salvia Coelho - Sim, é uma história de
um amor frustrado, que leva os amantes a perderem o chão e mergulharem na
loucura e na solidão.
RP - Por que retratar a loucura?
SSC - Tatiana Passarelli, desde que se formou
atriz em 2005, propôs ao dramaturgo Alessandro Toller essa longa pesquisa sobre
a loucura no cotidiano, interessada, sobretudo pela dificuldade das pessoas
compartilharem visões individuais do mundo. Os "loucos" seriam casos
extremos de uma dificuldade geral.
RP - O teatro nos bota questionamentos
possíveis e impossíveis. No espetáculo, a falta de espelho num quarto branco
remete um "olhar para o outro", o louco que em cada um há?
SSC - Sim, o outro que nos reflete se
soubermos olhá-lo. É um tema corrente em arte. Basta citar Entre Quatro
Paredes, do Sartre, e Persona, do
Bergmann, referências importantes para a nossa peça.
RP - O branco é psiquiátrico?
SSC - É a ambiguidade hospitalar:
a
esterilidade asséptica de uma "norma" artificial e neutra, mas a tela
em branco que estimula a projeção do universo interno de cada um. É a página em
branco, a tela de cinema, primeiro dia de criação e instrumento de tortura.
RP - O uso da linguagem audiovisual
conversa
com atores e agrega cenário. Há uma tendência de mesclar linguagens do cinema,
das artes plásticas e outras tantas no teatro brasileiro?
SSC - No teatro mundial, diria. Robert Wilson
já propõe há tempos uma forma de arte que ultrapassa o teatro; além da
"caixa preta" estão Antonio Araújo, Zé Celso, Gerald Thomas. Não se
trata de uma tendência da moda, mas de uma exigência da modernidade. Vivemos em
constante intertextualidade, a internet é o instrumento mais adequado para dar
vazão a isso, e o teatro, quando não anacrônico, deve saber dar conta disso.
RP - A adaptação do espaço alternativo
se fez
necessária para o espetáculo, o que não impede de se apresentar em outros
espaços?
SSC
- Cada espetáculo deve saber dialogar com
seu espaço material, para resgatar o aqui agora imprescindível das artes ao vivo.
Em um palco italiano, o espetáculo seria outro, mas não necessariamente menor
ou maior.
RP - Dada a experiência de crítico teatral,
como é “não saber criticar" a própria como diretor?
SSC - Não me sinto tão diferente assim na
função de crítico e na de diretor: são criatividades e sensibilidades
paralelas. O verdadeiro crítico é aquele que fareja fronteiras, não o que cola
rótulos. O verdadeiro criador, aquele que desconfia de suas próprias certezas.
Os espetáculos que mais me entusiasmaram, em oito anos de crítica na Folha [de
São Paulo], foram aqueles que mais me deixaram perplexo. O nome de meu núcleo,
o Coletivo Teatro de Risco, procura seguir os passos daqueles que não se
contentaram em reproduzir fórmulas de sucesso: Aderbal Freire Filho, Marcio
Aurélio e Cybele Forjaz, entre outros.
Gotas ao dia
Dramaturgia: Alessandro Toller e Tatiana
Passarelli
Direção:
Sérgio Salvia Coelho
Com Juliana Ostini, Laerte Késsimos e Tatiana
Passarelli