Michael Jackson e o cidadão de bem
Pedófilo ou não, de rei a escória a rei
novamente
por
Renata D'Elia
Suponhamos que Michael Jackson tenha sido
pedófilo - sim, suponhamos, porque nada foi provado judicialmente. Em 1993,
veio a primeira acusação. O molestado seria um garoto de 13 anos que fora visto
ao lado do ídolo em diversas ocasiões públicas, inclusive junto a outras
crianças, viajando pelo mundo de primeira classe, curtindo a badalação da fama,
e dormindo em hotéis cinco estrelas com um estranho enquanto deveriam
frequentar a escola e estar dormindo na casa dos pais. Antes que o cantor fosse
a julgamento, houve um acordo milionário para que o pai do garoto retirasse a
queixa. Abafou-se o caso. E com tanto dinheiro no bolso, supõe-se que tenham
acabado os problemas da família do garoto. Os de Michael Jackson, em
compensação, estavam longe de terminar.
Até os habitantes de Neverland [sic] sabem
muito bem que o dinheiro corrompe. E a julgar pelo exemplo, é capaz de resolver
problemas tão sérios quanto as marcas profundas de um garoto molestado
sexualmente. Tudo muito simples. Mas a primeira pergunta é: se o seu filho de
13 anos fosse abusado sexualmente, você aceitaria dinheiro para abafar o caso
em vez de ver seu agressor na cadeia, pagando pelos seus atos? O que é mais
importante: a justiça - e segurança de outras possíveis vítimas - ou uma bela
dinheirama na sua conta?
Poucos anos depois, vieram novas acusações.
Sem acordo financeiro desta vez. A polícia da Califórnia revistou a casa de
Michael Jackson, cercou seus funcionários, amigos, família, buscou testemunhas
e investigou o caso, como manda o figurino das balanças equitárias que
simbolizam o respeito às nobres leis do Direito. Michael Jackson foi algemado
diante das câmeras de TV do mundo inteiro. Julgado em um tribunal de Santa
Mônica, foi absolvido. Herdou dívidas supostamente maiores do que sua fortuna.
Não conseguiu se recuperar do baque. Mesmo morto e reconhecido como o maior
artista pop de todos os tempos, levou consigo, entre outras pechas
contraditórias, a de pedófilo.
Mas espere aí, meu honrado cidadão de bem:
você teria deixado seu filho dormir na casa de um homem recluso, solteiro,
esquisitíssimo e que já foi acusado de pedofilia? Mesmo que nada tenha sido
provado, sobram indícios e poderes de atração: comportamento infantil, parque
de diversões particular, histórico de agressão durante a infância,
desequilíbrio psicológico, milhões de dólares na conta bancária e, claro,
muitos mimos, presentinhos e uma alta dose de magnetismo pessoal para atrair
crianças indefesas. Hmmmm, pensando bem, pode render um bom dinheiro, não? E se
o "comedor de criancinhas" fizer uma reforma na sua casa, te der um
carro, financiar os estudos de seus filhos e, ainda por cima, for um grande
artista pop? Você pode até conseguir alguma fama em cima dele! E depois de tudo
- mesmo que ele não tenha feito nada - você pode meter um processo no cara e
ganhar uma boa grana.
Eu não sei se Michael Jackson abusou de
crianças. Espero, de verdade, que não tenha feito. Sobre ele, me interessam
outras coisas. De acordo com a Justiça, não houve crime. Mas o que acontece
entre quatro paredes envolvendo um homem e uma criança - que nem deveria estar
lá -, só eles podem saber. No entanto, me parece muito mais cômodo,
especialmente na preguiça de pensar, escolher umas fotos bizarras na internet,
zombar do nariz que desmancha e de todas as bizarrices e estranhezas desse
cavaleiro de triste figura numa espécie de linchamento moral de um fantasma
vivo, coisa que se arrastou por uma década e meia.
Essa é uma prática muito comum, especialmente
entre os hipócritas, já que é muito mais cômodo fazer juízo de um "ser
humano deplorável" que eles nunca conheceram. Diante da situação, eu não
teria tanta repulsa de Michael Jackson. Teria medo mesmo é do "cidadão de
bem".
*Renata D'Elia é
jornalista e já foi editora de Música da Paradoxo
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