A Guerra no Século XXI ou a terceirização da
guerra
Em
entrevista ao jornal argentino Página 12,
Dario Azzelini, pesquisador italiano das novas guerras, defende que "a
guerra não é mais para instalar outro modelo econômico; ela é o modelo".
"O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente era para trocar as elites e o
controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou
político. Agora, em muitos casos as guerras são permanentes. Não se faz a
guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o
mecanismo de lucros", afirma o historiador.
Natália Aruguete e Walter Isaía - Página 12
A idéia do conflito permanente cria condições
para o surgimento de um modelo econômico que seria impossível de instalar em
condições de paz. Ao mesmo tempo, é cada vez mais importante a intervenção de
Companhias Militares Privadas (CMPs) em todo o mundo, do Iraque até a Colômbia.
Que significa a denominação de novas guerras
que o senhor usa no livro O Negócio da Guerra?
Azzelini: No debate acadêmico e - em parte - o
político, a expressão novas guerras foi introduzida para denominar o fato que
mais e mais guerras não se dão entre países mas no interior dos países ou, pelo
menos, entre um exército regular e um irregular. A expressão, porém poderia se
ampliada porque com as modificações de estratégias de sua condução, vemos que
até os países com exércitos regulares estão transferindo a violência para
empresas privadas ou estruturas paramilitares: atores que não são os tradicionais
nas guerras comuns.
Acabaram as guerras entre Estados?
Azzelini: Não é que tenham acabado. Pelo
contrário, na última década também houve um aumento das guerras entre países,
mas se apresentaram de outra maneira. Os ataques ao Afeganistão ou Iraque foram
guerras entre países, mas a porcentagem das guerras irregulares em comparação
com as regulares está aumentando.
Isso obedece à lógica neoliberal?
Azzelini: Dizemos que obedece a certas lógicas
do neoliberalismo no sentido de aumentar lucros. O sentido da guerra mudou.
Tradicionalmente era para trocar as elites e o controle das economias, ou
introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos
casos as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro
modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros.
Por exemplo?
Azzelini: Por exemplo, Colômbia. Muito dos
lucros nesse país são porque - praticamente - é um país em guerra. Durante os
últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria
se fez com uma guerra. Se não fosse assim, não teria sido possível expropriar
as terras de milhões de camponeses e fazer uma reforma agrária ao contrário, na
qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de 6 milhões de hectares
de terra.
Neste
cenário, como fica o lugar do Estado?
Azzelini: Em todo o discurso liberal se diz
que o Estado está supostamente perdendo o controle desses atores armados.
Fundamentalmente, no caso da Colômbia. Creio que os Estados não perdem o
controle e, se o perdem, é em pequenos pontos. Simplesmente estão terceirizando
as funções repressivas ou de guerra, criando mais confusão. Os grupos
paramilitares colombianos foram criados pelas dificuldades do Estado em
conseguir financiamento internacional nos anos 80, pela responsabilidade do
exército ou da polícia em delitos contra os direitos humanos. Logo se montou o
show da suposta desmobilização dos paramilitares, mas já no final dos 90 era de
conhecimento público que o paramilitarismo estava coordenado, fomentado e
controlado pelo exército e as autoridades colombianas.
Em 2000, a Human Right Watch publicou uma
análise da Colômbia cujo título era Paramilitarismo, a sexta divisão do
exército colombiano (o exército colombiano tinha cinco divisões). Nesse informe
esclarecem que o paramilitarismo é parte integral da situação do exército
colombiano e que o processo de desarmamento é uma farsa. Os supostos
paramilitares desmobilizados aparecem em outras zonas da Colômbia onde ainda se
necessita o paramilitarismo como estratégia ou como supostos grupos rearmados.
Como e quando nascem as Companhias Militares
Privadas (CMPs)?
Azzelini: As primeiras nascem imediatamente
depois da II Guerra Mundial, porque o exército dos Estados Unidos tinha grande
capacidade de transporte que já não necessita manter e começou a privatizar
parte do transporte. Porém o verdadeiro boom dessas empresas começou em fins
dos anos 80 e foi reforçado de forma maciça nos 90. Na primeira guerra dos
Estados Unidos contra o Iraque, a relação entre os empregados das CMPs e os
soldados era de 1 para 100. No Afeganistão, de 1 para 50/40. Agora, no Iraque
há 180 mil empregados das CMPs, segundo dados do próprio exército
norte-americano. Quantidade maior do que a dos soldados do exército.
Que atividades exercem estas companhias?
Azzelini: Todas as que alguém possa imaginar.
O emprego de armas sofisticadas (como aviões não tripulados, radares ou mísseis
de navios estadunidenses) na primeira onda de ataques ao Iraque foi realizado
por especialistas de empresas privadas. Além disso distribuem a
correspondência, cozinham ou lavam a roupa dos soldados, montam os acampamentos
militares, as prisões. No caso da prisão de Abu Ghraib houve julgamentos e
investigações contra menos de 10 soldados dos Estados Unidos, quando deveria
haver muitos mais implicados. A verdade é que a prisão era administrada em
todas as suas funções por duas empresas privadas: CACI e Titan.
Quais são as vantagens de terceirizar esse
tipo de tarefas para as CMPs?
Azzelini: Como formalmente são civis, não
podem, portanto, ser julgados pela Justiça militar. Ao mesmo tempo, em seus
contratos lhes é assegurado que não podem ser submetidos à Justiça civil dos
países em que eles atuam. Praticamente se criou um campo de impunidade. E a
única via para fazer algo contra esses crimes é iniciar processos nos Estados
Unidos contra essas empresas. Quantas vítimas têm a possibilidade de fazer
isso. Quase ninguém.
Cria-se uma espécie de marco normativo para
acionar estas empresas?
Azzelini: Sim. Legaliza-se todo o negócio dos
mercenários com esse marco de impunidade. Além disso, terceiriza-se a
responsabilidade. Milles Frechette, ex-embaixador dos Estados Unidos na
Colômbia, disse que é muito cômodo trabalhar com essas empresas porque se
morrem, não são soldados dos Estados Unidos e, se fazem algo errado, a
responsabilidade tampouco recai sobre os Estados Unidos. No caso da DinCorp que
faz as fumigações de supostas culturas de amapola e coca, na Colômbia há um
processo internacional porque fumigaram parte do Equador. Mas a empresa alega
que eles não podem dizer nada porque parte de seu contrato é não dar informação
a terceiros. O contrato vem do Pentágono. Então, se um congressista lhe
solicita prestação de contas, o Pentágono apresenta o contrato e diz: eles
fazem estas tar efas. Se faz algo mais não podemos controlá-la porque é uma
empresa privada.
Estas empresas, geralmente estadunidenses, são
contratadas pelo Pentágono?
Azzelini: A maioria. De fato, a maior parte do
financiamento vem dos Estados Unidos. Do gasto militar no âmbito mundial os
Estados Unidos executa a metade. Há empresas também na Europa, empresas russas,
na Ásia. Mas as dos Estados Unidos só trabalham sob o consenso do Pentágono.
Pode ser que treinem o exército da Coréia do Sul, mas com o de acordo do
Pentágono. As empresas russas ou outras de países do Leste, contrata-as quem
tem dinheiro.
Como convive o exército norte-americano com as
CMPs?
Azzelini:
Depende de que setores do exército
falemos. No campo concreto provavelmente haja conflitos, já que os empregados
dessas empresas de segurança costumam ganhar mais do que os soldados. Trabalham
em assuntos de maior risco com menos segurança. Porém trabalhar juntos funciona
muito bem porque as empresas de segurança são fundadas e organizadas por
ex-membros do exército dos Estados Unidos. Também muitos políticos são donos ou
copartícipes dessas empresas. Há empresas como a MPRI, fundada por generais dos
Estados Unidos da primeira guerra contra o Iraque, que estiveram durante um
tempo nas reuniões do Pentágono. Há ligações pessoais muito estreitas. A Eagle
Aviation Services and Technology (EAST), que prestou serviços à CIA nos anos
80, é a encarregada do transporte de maquinaria no marco do Plano Colômbia e do
Plano anti-drogas na América do Sul.
Quanto dinheiro movimentam estas empresas?
Azzelini: É um negócio que deve estar
movimentando ao redor de 150 a 200 bilhões de dólares por ano no mundo. As
pequenas foram compradas pelas maiores, movimentam muito dinheiro, várias têm
cotação na Bolsa. Tornou-se um mega negócio no qual participam empresas que
trabalham em outros campos. Mas também há ligações entre empresas
transnacionais de recursos naturais como petrolíferas e mineradoras.
Pode nos dar um exemplo?
Azzelini: Na guerra no Congo, antes que
Laurent Cabila ganhasse, havia mineradoras transnacionais que pagavam a
mercenários ou a empresas militares privadas para acompanhar as diferentes
facções. Uma vez liberado um território mineiro, já havia engenheiros e as CMPs
com as mineradoras tinham o controle do território e faziam um acordo com a
facção ganhadora para explorar a jazida.
Como é a contratação das CMPs?
Azzelini: São contratadas para fazer
trabalhos. E esse também é outro assunto para escapar do controle. A lei
norte-americana estabelece que todos os contratos que superem 50 milhões de
dólares têm que ser aprovados pelo Congresso. Normalmente fracionam-se os
contratos para que sejam inferiores e o Congresso nem se intera desses
contratos ou do que estejam fazendo essas missões. É a possibilidade de os
Estados Unidos fazer intervenções militares em outros países sem que apareçam
como tais, porque não são seus soldados que atuam. Todos sabemos o impacto
público que causa a imagem dos soldados mortos com a bandeira yankee que
regressam aos Estados Unidos. Isso não acontece se morre um empregado de uma
empresa privada: não causa indignação pública porque é como se morresse um
empregado da IBM em Cingapura. Ninguém se importa com isso. No Iraque pode-se
estimar que haja morrido, no mínimo, 2 mil empregados das CMPs. Isso ajuda a
manter o número de baixas num nível baixo.
Contratam empregados na América Latina?
Azzelini: O recrutamento na América Latina
cresceu muito nos últimos quatro anos. Antes recrutavam muito nas Filipinas,
Nepal, Fiji, Estados Unidos, Inglaterra, França. Mais acostumados a trabalhar
com certa modalidade. No Nepal, os gurkas têm uma tradição de 150 anos de
mercenários e os de Fiji obtiveram muita formação em missões da ONU.
Como essas empresas aparecem nos meios de
comunicação?
Azzelini:
Um caso que passou muito pela
imprensa foi em 2004 em Falluja, onde houve imagens fortes de uns supostos
civis - como explicou em princípio a imprensa - que foram cercados pela
população iraquiana , assassinados e seus corpos queimados e pendurados em uma
ponte. A imprensa disse que esse pessoal acompanhava um comboio. Formalmente
eram civis, mas eram empregados da Blackwater, uma das maiores empresas no
campo militar. Estavam protegendo um comboio de soldados norte-americanos, uma
tarefa militar. O problema é qual informação é obtida e é apresentada pela
imprensa. Toda a informação que se tem do conflito do Iraque passa pelo
departamento de relações de imprensa do exército dos Estados Unidos. São
repórteres de imprensa militares. Eles só relatam ações nas quais participam os
soldados do exército norte-americano, porém, como há mais empregados das
empresas militares do que soldados, não temos nenhuma informação sobre muitas
ações. Houve empregados de empresas privadas que repeliram o ataque das forças
rebeldes iraquianas quando a cidade de Falluja esteve tomada pela resistência.
As forças da empresa Blackwater se infiltraram para fazer atentados e pôr
bombas.
Os
empregados das CMPs são os contratistas que
a cadeia CNN menciona, por exemplo?
Azzelini: Sim. São os empregados destas
empresas. O exército contrata as empresas e a as empresas a estas pessoas.
Porém não apenas o exército. No Iraque todas as embaixadas e empresas contratam
CMPs para custódia e segurança. Na Colômbia, a colombiana Ecopetrol, que
explora campos petrolíferos junto com a OXI dos Estados Unidos, contrata a CMP
AirScan da Flórida para fazer sobrevôos e obter informação de tropas
insurgentes que estejam perto dos campos e o oleoduto desde Caño Limon até o
porto onde se exporta petróleo para os Estados Unidos. Em 1998, a vila de Santo
Domingo foi bombardeada por helicópteros do exército colombiano e causaram
quase 20 mortos. Fez-se uma investigação, julgaram os pilotos do exército
colombiano que disseram que bombardearam, mas somente seguindo ordens. A
AirScan passou informação ao exército de que nessa vila havia uma coluna
guerrilheira , por isso a bombardearam.
Então cuidam dos negócios das empresas e
brindam serviços ao exército.
Azzelini: É parte do trabalho. No caso do
campo petrolífero de Cano Limon é uma cooperação bem organizada e partilhada. A
empresa de segurança é paga pelas empresas e apoiada pelo exército colombiano e
pelos Estados Unidos com tecnologia. É um conjunto de empresas públicas e
privadas, exércitos, CMPs e polícias que formam uma rede que garante a saída do
petróleo da Colômbia para os Estados Unidos.
Nessa trama, as CMPs têm relação direta com os
Estados e os exércitos?
Azzelini: A operacionalização é a seguinte: os
Estados Unidos fazem o Plano Colômbia e grande parte do dinheiro nunca chega à
Colômbia, só atravessa a rua do Pentágono, já que em frente estão as sedes de
muitas das empresas militares privadas que vão trabalhar na Colômbia. Há que
destacar que enquanto nas guerras clássicas os soldados tinham o interesse de
terminar a guerra, estas empresas não, porque só ganham se há conflito.
Provavelmente não agem com o espírito de terminar com esses conflitos porque
perderiam seu ganha-pão.
Há vínculos comprovados com o narcotráfico na
Colômbia?
Azzelini:
Houve casos de vários empregados de
empresas que estiveram implicados em casos de narcotráfico. É muito difícil averiguar,
mas pode-se supor que haja alguns contatos entre algumas empresas e o
narcotráfico.
Dentro das tarefas das CMPs na Colômbia,
inclui-se agir contra dirigentes sindicais?
Azzelini: Sim. A British Petróleo contratou
uma empresa que fazia trabalhos de inteligência com movimentos sociais e
indígenas que estavam na zona. Os paramilitares assassinaram líderes sociais e
se sabe que as CMPs passavam informação ao exército. Os militares dizem que não
os mataram, que foram os paramilitares, mas a ligação fica clara.
Como atuam estas companhias no México?
Azzelini: Há alguns mercenários israelenses
que apoiaram o treinamento para a formação de grupos paramilitares em Chiapas.
Mas é pouco claro. A construção do paramilitarismo no México é diferente do
colombiano. Na Colômbia organizaram-se tropas irregulares que se apropriaram
das terras, casas, etc. No México criaram-se comunidades paramilitares. Elas
são infiltradas, preparadas e se tornam comunidades paramilitares.
Como se vincula a ação destas companhias com a
violência sexual na Guatemala?
Azzelini: O caso da Guatemala é anterior ao
das construções paramilitares como as autodefesas civis, pagas para apoiar o
exército em seu trabalho genocida. A violência sexual se encaixa porque é parte
integral da guerra desde sempre. Assassinavam os homens e violavam e ficavam
com as mulheres. Isso rompe o tecido social de toda a comunidade.
Estas estruturas paramilitares, com as CMPs e
os Estados, formam modos de controle social e paraestatalidades?
Azzelini: Sim, paraestatalidades porque têm
território ou representam o Estado. Salvador Mancuso, ex-chefe paramilitar
colombiano que foi extraditado em 15 de maio último para ser julgado nos
Estados Unidos - disse em uma entrevista à RCN que controlavam congressistas e
que, para chegar ao cargo, tinham que concordar com eles, se não, não recebiam
votos. A Colômbia é claramente um narco-Estado paramilitar. Não controlam zonas
senão as que estejam no Estado. Isso também explica as ligações com as empresas
privadas. No norte da Colômbia, empresas bananicultoras pagavam uma porcentagem
por cacho de bananas aos paramilitares para a segurança.
Há empregados das CMPs reféns das FARC?
Azzelini: Há três (*), mas é um caso
complicado. Um avião pequeno, emprestado pelo Pentágono a uma empresa,
sobrevoava as zonas guerrilheiras para transmitir informação sobre as colunas e
os chefes guerrilheiros e foi abatida. Supunha-se que os estadunidenses em mãos
das FARC eram da empresa, mas logo se soube que eram da CIA e que se usava a
empresa como véu.
(*) Devem ser os três americanos libertados
junto com Ingrid Betencourt.
Existe alguma estratégia dos Estados Unidos
para a América Latina na qual participem as CMPs em médio ou longo prazo?
Azzelini: Há dois elementos, um é a grande
base de dados de ex-militares formados que participaram de ditaduras e foram
adaptados às novas formas de atuação do exército dos Estados Unidos para
trabalhar no Iraque. Há milhares de empregados latino-americanos trabalhando
para as CMPs: ex-militares da Argentina, Chile, Honduras, El Salvador e
polícias especiais do Brasil e Peru. Neskowin tinha sua sede em Montevidéu e
recrutava ex-militares argentinos e uruguaios para a Blackwater no Iraque. A
segunda é a ampliação maciça do paramilitarismo em alguns países da América
Latina. Na Venezuela começa a haver contatos com grupos da oposição. Na Bolívia
também com os autonomistas de Santa Cruz. E no Equador, para formar como uma
espécie de contra (revolução) reserva (stand by) a médio prazo. Na Venezuela
pode-se traduzir em uma combinação entre as estruturas paramilitares e o
pessoal contratado que monte algo similar a contra (revolução) como foi na
Nicarágua.
(**)
A Companhia das Letras editou Blackwater,
a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, de Jeremy Scahill (R$
41,00), com a história da CMP que, em menos de dez anos, tem contratos oficiais
de US$ 600 milhões só com o governo dos EUA.
A
Blackwater comprou da Embraer um Super Tucano, avião para treinamento militar
avançado, e que foi entregue em 22 de fevereiro de 2008. Segundo a revista ASAS
de abril/maio de 2008, a empresa norte-americana é a primeira operadora civil
do Super Tucano.