A memória fotográfica: o instante decisivo
No letreiro de um
de seus retratos, Chris Marker anotou: “naquela fração de segundo, o operário chileno sabia que a fábrica nacionalizada
era propriedade sua, o boxeador tailandês sabia que tinha perdido, a esquerdista alemã sabia da derrota de seu partido.”
Olgária Mattos
A exposição
“Staring Back” apresenta, no MIS, os trabalhos de Chris Marker, realizados entre 1952 e 2006. Cineasta, fotógrafo
e poeta, o artista constrói a narrativa das convulsões do século e da História contemporânea, das crises francesas ligadas
à independência da Argélia até maio e 68, da Guerra do Vietnã às manifestações contra a Lei do Primeiro Emprego na França
em 2006, do Governo da Unidade Popular de Allende no Chile em 1972 a Marighela no Brasil,dos Baader Meinhof à queda do Muro
de Berlim e à Perestroika em Moscou.
Cronista, Chris Marker desestabiliza
a versão consagrada dos eventos de uma história oficial celebrativa, desfazendo a idéia de uma gesta heróica, fundada no dualismo
do vencedor e do vencido, distanciando-se da noção de uma História Universal e da unilateralidade de um sentido único dos
acontecimentos. Em cada fotografia há personagens que, a igual título do próprio artista, são testemunhas e atores de seu
tempo. Se o olhar da câmera é melancólico, isso deve-se à visão markiana do tempo (fotográfico). Assim, à foto de 1961 na
Praça da Bastilha sucede o mesmo lugar mas em outra data, agora 2001. Deslocando o tema da repetição na história para seu
sentido inédito, à multidão aguerrida e politizada do passado se substitui um casal de namorados, um Eros que depôs as armas
e transfigurou o espaço matricial da República em lugar de enamoramento e ócio, em “ cansaço político”. O mesmo
e seus duplos registram a passagem do tempo e a caducidade de tudo que é humano, mal,temporal, todas as coisas destinadas
ao desaparecimento.
Em lugar do fotógrafo militante que estetiza
seus objetos de representação e à qual pretende atribuir uma objetividade sem lacunas, Marker trabalha com o “surrealismo
dos fatos”. Esta é sua maneira de compreender o limiar entre o luto e o lúdico, aceitando um mundo paradoxal em que
não existem soluções definitivas, no qual a memória previne reunir os acontecimentos sob um único princípio, seja ele a luta
de classes, a tomada do poder,a injustiça ou o fim da História. Assim, em uma das fotos de 1968, o passante solitário compõe
a cena primitiva dos carros incendiados na rebelião estudantil, em que a ação é uma das figuras da contemplação. Na obra de
Chris Marker, se a História é um acúmulo de ruínas, a memória é uma forma particular de atenção para a qual cada acontecimento
é o primeiro e o último na álgebra do tempo. Marker,em meio a um mundo desumano e contraditório, reavê a potência alucinatória
das imagens,sem a solução mágica e preguiçosa de “ mudar a desordem das coisas”.
O
ato fotográfico é, para Marker, um consentimento ao mundo, consentimento mas sem qualquer resignação. Por isso, em letreiro
de um de seus retratos, o artista anotou: “naquela fração de segundo, o operário chileno sabia que a fábrica nacionalizada
era propriedade sua, o boxeador tailandês sabia que tinha perdido, a esquerdista alemã sabia da derrota de seu partido.”
A arte de Marker é uma reflexão sobre a instantaneidade dramática do décimo de segundos em que toda uma existência se resume
e o acaso se torna destino e História.
Olgária Mattos é filósofa,
professora titular da Universidade de São Paulo.